A cultura do “selfie”

Cultura do selfie: “Não basta fazer, você precisa fazer com que todos saibam que você fez”

 

Não é segredo para ninguém que vivemos numa sociedade cujas relações interpessoais estão cada vez mais intermediadas pela imagem. Nessa sociedade, que o filósofo Guy Debord chama de “sociedade do espetáculo”, mais importante do que SER é PARECER. Não basta fazer, você precisa fazer com que todos saibam que você fez. O treino na academia, o prato bem decorado no restaurante chique, os primeiros passos do seu filho, nada escapa às onipresentes câmeras dos nossos celulares, prontas para mostrar ao mundo o quanto você é feliz e realizado.

Ingenuidade achar que nós, cristãos, escaparíamos ilesos desses costumes. Naturalmente nós, em especial os músicos, expomos nossas vidas, nossas orações, intenções, missões, quase sempre com o pretexto de evangelizar. Mas até que ponto o que pensamos ser evangelização, no fundo é uma simples autopromoção?

Diz-nos a Palavra de Deus que “quando deres esmola, tua mão esquerda não saiba o que fez a direita.” (Mt 6, 3). Ou seja, a caridade que é feita diante dos olhos dos homens perde boa parte do seu valor diante dos olhos de Deus. Por isso Jesus foi bastante duro com os fariseus que “fazem todas as suas ações para serem vistos pelos homens” (Mt 23, 5) acusando-os de hipócritas.

De fato, o espírito de vanglória é uma das maiores tentações do cristão “filho mais velho”, que cumpre com todas as suas obrigações, segue fielmente os preceitos morais e participa ativamente das atividades na Igreja e se outorga o direito de desprezar quem não é tão “santo” quanto ele. É desse sujeito que Jesus fala quando conta a parábola do fariseu e do publicano em que o primeiro fazia uma (se é que existe) falsa oração, que exaltava a si mesmo e desprezava o outro, enquanto o segundo orava conforme a verdade do seu coração, ainda que impuro.

Hoje, o que vemos muitas vezes pelas redes sociais é um grande desfile de autopromoção disfarçada de testemunho. Sem nos dar conta, amplificamos esses valores mundanos agindo da mesma forma exibicionista, mas, para aliviar nossa consciência cristã passamos uma demão de piedade cristã ao que, no fim das contas, é apenas vaidade.

A evangelização necessita ser cristocêntrica, do contrário, corremos o risco de atrair as pessoas a nós, à nossa paróquia, à nossa comunidade, vendendo enganosamente a ideia de que somos exímios exemplares de vida cristã. Depois ainda não entendemos – e ainda julgamos – as muitas pessoas abandonam a fé quando se decepcionam com as pessoas…

Precisamos desmascarar esses demônios internos que estão por trás de muitas de nossas atitudes, sem medo de encará-los e dar o devido nome a eles. Des-cobrir sentimentos que à primeira vista parecem piedosos, mas que escondem impulsos instintivos egoístas e exibicionistas e trazendo à luz aquilo que é obscuro é que temos a capacidade de coloca-los nas mãos de Quem é devido.

 

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