Antes de gravar um CD (ou “para o seu sonho não virar um pesadelo”)

Todo artista, nem que seja lá no fundo, sonha em deixar sua obra registrada de alguma forma. Com os músicos não é diferente. Quando o músico começa a se aprimorar tecnicamente ou então quando começa a produzir uma obra autoral – ou seja, composições próprias – é perfeitamente natural que ele queira que essa obra não fique na gaveta, mas que seja distribuída o máximo possível. Relaxe, isso não é pecado. Afinal de contas, ninguém acende uma vela para pôr debaixo da mesa. Até bem pouco tempo, o disco físico, fosse em vinil ou em CD, era a única forma de se registrar música, mas com o advento da internet, as opções se multiplicaram. Apesar disso, o mercado fonográfico ainda gira em torno do produto “álbum”, ainda que estejamos num processo de transição para algo que ainda não sabemos bem o quê. Sendo assim, gostaria de tratar aqui de algumas questões que envolvem a gravação de um CD que quem está começando desconhece e que eu gostaria de ter ouvido antes de gravar os meus.

  1. EU TENHO UM CHAMADO?

Essa é a primeira pergunta a ser respondida antes de se decidir partir para o estúdio, pois o artista católico precisa de envio, precisa de uma comunidade que o apoie e na qual ele sirva. O mundo da música é cheio de glamour e é muito fácil deixar-se enganar pelos falsos atrativos. Quando “o bicho pegar” e a coisa apertar (porque, não se engane, isso vai acontecer), só vai permanecer quem tem uma verdadeira vocação para o serviço. O que começa com uma visão espiritual e missionária, irá inevitavelmente passar a entrar no mundo dos negócios e do mercado. É preciso estar consciente disso.

  1. EU TENHO UM PÚBLICO?

Outro fator importantíssimo antes de se lançar um CD é saber se existe gente para comprá-lo. Um CD é um produto como qualquer outro e, como acontece com todo produto, é necessário saber se há um mercado para ele. Seja por causa da facilidade de acesso pelas vias digitais, seja por pirataria mesmo, sem entrar nos méritos morais da questão o fato é: hoje em dia, cada vez menos as pessoas compram CDs. Você tem um grupo considerável de pessoas que gostam da música que você faz? Que gastaria seu dinheiro para te ter cantando na casa, no carro ou no celular delas? Uma tiragem mínima de um disco é de mil cópias. Se você não tem certeza de que vai encontrar mil pessoas para comprar seu disco, então me escute: não grave.

  1. AS PESSOAS ME CONHECEM?

Infelizmente precisamos encarar uma realidade: ninguém compra o que não conhece. Para que as pessoas se interessem pela sua música, elas precisam antes de tudo te conhecer! Antigamente, as formas de divulgação eram bastante restritas e resumiam-se basicamente nos meios de comunicação de massa. Hoje em dia, é possível estabelecer um público razoável trabalhando apenas pela internet, através das redes sociais. Mostre sua cara, grave vídeos cantando e tocando, comunique-se com as pessoas e assim, com o tempo, você irá formar um público.

  1. O QUE EU TENHO A DIZER?

Essa que parece a questão mais simples é, na verdade, a mais complexa. Acredite. Todo artista católico quer falar de Deus, quer cantar louvores e evangelizar. Só que o que poderia ser uma facilidade acaba se tornando um problema: todos fazem isso. E tem gente que faz isso muito melhor e há muito mais tempo que você. Por que alguém deixaria de comprar o disco de alguém mais experiente para comprar o seu? O que você tem de novo a acrescentar ao que já existe por aí? Esse processo não é nada fácil nem rápido. Envolve uma boa dose de autoconhecimento, autocrítica e maturidade espiritual e artística. Você precisa ter plena consciência do seu ministério e do que você tem a dizer, ou seu CD será apenas mais um no meio de centenas que são lançados todos os anos.

  1. QUAL É O MEU ESTILO?

Muito embora quando se trata de arte não é legal falar em rótulos, é muito importante saber que, ao se lançar no mercado, as pessoas vão esperar algo de você. E querem saber que vão encontrar ali o que esperam. Antes de gravar seu CD, você sabe qual é seu estilo, qual é sua cara? Ainda que você não saiba dar um nome específico, se é pop, rock, MPB ou sertanejo, feche um discurso único, coerente. A tentação de querer fazer tudo o que você gosta ao mesmo tempo será muito grande, mas quem quer fazer tudo ao mesmo tempo acaba não fazendo nada bem feito. Antes de ousar passos mais largos, aventure-se num terreno mais confortável. É isso o que as pessoas esperam de você e você poderá fazer o seu melhor.

Continua na próxima postagem… 

Luís Felipe Barbedo

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